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Um ano de feminismo

CCR
 
27/11/2015

2015 foi um ano marcante para as mulheres. Pode-se dizer que a mídia nacional e internacional manteve a cobertura e disseminação dos fatos e imagens de maneira consistente e contínua durante todo o ano. Esse movimento nomeado como “Primavera das Mulheres” teve seu ponto máximo em novembro com a Marcha das Mulheres Negras. Episódio único na história do país e que congregou mulheres de todas as raças, credos  e identidades na defesa de seus direitos humanos. Apesar das manifestações ocorrerem neste ano, o movimento de mulheres e principalmente o feminismo negro nos remete à década de 80, quando se estruturou a organização de mulheres negras, que tinha por objetivo demarcar novas demandas para as mulheres e marcar posições no campo feminista.     

Entre os motivos das mobilizações das mulheres está a aprovação na Comissão de Constituição de Justiça da Câmara dos Deputados do Projeto de Lei 5069, de autoria do deputado Eduardo Cunha, que dificulta o acesso ao aborto legal no caso de gravidez decorrente de estupro e também problematiza o direito a contracepção de emergência. Mulheres saíram em protestos pelas ruas do Brasil, em defesa de direitos sexuais e reprodutivos já conquistados, o que levou a um debate que há tempos não ocorria: sobre a legalização do aborto.      

Na mídia, a discussão também ganhou força com o Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM), que trouxe em sua redação o tema “a persistência da violência contra a mulher na sociedade brasileira”. Isso logo após à polêmica junção da Secretaria de Política de Promoção da Igualdade Racial (SEPPIR), a Secretaria de Direitos Humanos (SDH) e a Secretaria de Políticas para as Mulheres (SPM) em uma única pasta, anunciada pela presidente Dilma Rousseff.

A internet também foi um canal usado para protestos e discussões. É no ambiente online que surgem diversos coletivos e militâncias feministas que conseguem se organizar e facilitar a chegada do feminisno na “vida real” de muitas pessoas. Hashtags como a #meuprimeiroassédio #AgoraÉQueSãoElas e a mais recente #meuamigosecreto, que faz um paralelo com a brincadeira de final de ano, expõem atitudes machistas e dão voz às mulheres que sofreram violências de qualquer tipo. Blogs como Blogueiras Feministas e Blogueiras Negras possibilitam a disseminação de ideias e reflexões sobre direitos das mulheres. Comunidades online, como a “Vai Ter Shortinhos Sim!”, criada por adolescentes para soltar a voz contra atitudes machistas, como a restrição ao uso de shorts acima do joelho em escolas de São Paulo, mostram a conscientização e mobilização inclusive entre meninas mais novas. Ainda na internet, casos recentes como o da atriz Taís Araújo e da jornalista Maria Júlia Coutinho trazem a luz, descortinam a violência que muitas mulheres sofrem diariamente: a do preconceito de raça, de gênero e de classe. A mulher preta e pobre sofre mais com as desigualdades socio-políticas, culturais e econômicas, como mostram dados do Mapa da Violência 2015, elaborado pela Faculdade Latino-Americana de Estudos Sociais (Flacso/Chile). O número de mulheres negras mortas cresceu 54% em 10 anos (de 2003 a 2013), enquanto que o número de mulheres brancas assassinadas caiu 10% no mesmo período. No total, 55,3% dos crimes contra mulheres foram cometidos no ambiente doméstico, com 33,2% dos casos cometidos por parceiros ou ex-parceiros das vítimas.     

Essa nova geração de ativistas, que toma as ruas e as redes sociais, está criando o movimento político mais importante do Brasil na atualidade. A performance das mulheres no âmbito da sociedade civil em 2015 superou e muito as finidas respostas que os poderes Executivo e Legislativo vem ofertando à sociedade brasileira. Faltam políticas justas e democráticas destinadas a grupos específicos da sociedade. Falta combater a banalização de mortes violentas de tantas mulheres. Falta olhar para o feminismo como uma forma legítima de protesto contra todas as formas de opressão. A hora de agir é esta! Até porque em 2016, além de tudo, trará novamente as eleições ao cenário nacional. O debate e a mobilização das ruas precisam e devem seguir.

 

 
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