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Zika Virus: o país já não espera por uma solução, porque não é possível esperar mais

CCR
 
1/3/2016

 Declarado no último mês como emergência de saúde pública em âmbito internacional pela Organização Mundial de Saúde (OMS), o surto do Zika Vírus tem se alastrado muito mais rapidamente do que a capacidade da ciência e das políticas públicas e seus gestores, nos variados níveis, têm conseguido criar e implementar respostas. Na verdade, há de se reconhecer que não sabemos de nada sobre o que vemos eclodir no país.

Em visita recente ao Brasil, a OMS anunciou uma estratégia para controlar a epidemia causada pelo Aedes aegypt. O “Plano de Arcabouço para Reação Estratégica de Operações Conjuntas” consistirá num investimento de US$ 56 milhões (cerca de R$ 255 milhões) em medidas para combater o alastramento do vírus.
 
Paralelamente, inicia-se em primeiro de março, os testes para detecção de segmentos do “pacote” zika, chikungunya e dengue em gestantes pelo Hospital Universitário da Faculdade de Medicina de Jundiaí (FMJ), tradicional instituição de formação de médicos no Estado de São Paulo, e cuja capacidade técnica instalada é referência nacional como um centro de excelência para pacientes gestantes de alto risco. O projeto, de maneira inovadora, está composto por uma equipe de pesquisadores de primeira linha da própria Faculdade e com um conjunto de pesquisadores colaboradores, vinculados a diversos outros Núcleos e instituições, como o Instituto de Ciências Biomédicas da USP, o NEPO – Núcleo de Estudos de População da UNICAMP,  e que terão funções específicas, tais como o acompanhamento da situação de saúde mental das mulheres envolvidas, o acompanhamento do desenvolvimento neuromotor das crianças diagnosticadas com microcefalia, o mapeamento genético das mulheres, dentre outros aspectos.
 
Saulo Passos, médico coordenador das pesquisas sobre o vírus Zika no Hospital Universitário e na FMJ, explica que a maioria das mulheres que apresentam sintomas geram fetos microcefálicos, porém não há resultados que comprovem a responsabilidade do vírus pela mutação.
 
Bebês gerados por mulheres que entraram em contato com o vírus serão acompanhados por no mínimo três anos - tempo médio em que o cérebro leva para se desenvolver -, mesmo que nasçam aparentemente saudáveis. A intenção é monitorar possíveis lesões neurológicas não determinadas no nascimento – além disso, as gestantes cuja microcefalia do feto for comprovada serão especialmente monitoradas durante toda a gravidez e pós-parto, contando inclusive com suporte psicológico.  Margareth Arilha, psicóloga e psicanalista, pesquisadora do NEPO e membro da Comissão de Cidadania e Reprodução, conduzirá esse eixo do projeto, que visa acompanhar a saúde mental das gestantes do grupo de risco.
 
Para adensar os esforços na luta contra a epidemia, o Hospital Universitário, em uma parceria com a Faculdade de Medicina de Jundiaí, vem capacitando voluntários para realizar o acolhimento e sensibilizar gestantes para que passem a fazer parte do projeto de investigação que poderá trazer benefícios à própria, seus familiares e especialmente às crianças nascidas com a Síndrome do Zika Vírus. 
 
Outros fatos têm sido registrados pela mídia nacional, como as inseguranças com que as mulheres de todas as classes sociais têm vivido suas gestações. No entanto, como sempre, mais uma vez, serão punidas as mulheres que vivem em condições de pobreza, em relações instáveis do ponto de vista da conjugalidade (há muitos relatos de abandonos), e que se debruçarão com dificuldades sobre a gigante tarefa de tomar decisões reprodutivas, e responder a uma história de vida que a toma despreparada, em todos os sentidos, físico, psíquico, financeiro, num país que atravessa um de seus piores cenários do ponto de vista político, econômico e social. Sem gestão, como se poderá atravessar tais crises? Sem contracepção de emergência, sem leis que promovam o direito de decidir, como poderão seguir? No último dia 29, uma pesquisa Datafolha com 2.768 entrevistados resultou em 58% de opiniões contra a possibilidade de aborto em casos de infecção pelo Zika, enquanto 32% se mostraram favoráveis (10% se abstiveram) – mas o que mudaria caso o Brasil apoiasse a descriminalização do aborto? Em primeira instância, mulheres não seriam presas ao decidir sobre sua vida e saúde reprodutiva; em segunda, a morbimortalidade feminina decorrente de abortos clandestinos e inseguros cairia, e os procedimentos seriam normatizados e feitos por profissionais qualificados com suporte seguro do sistema de saúde. Vale a pena recordar que os países do Reino Unido, mesmo com um sistema de governo majoritariamente monárquico, regulamentou o direito ao aborto em 1967, após um surto de Rubéola.  
 
O país já não espera, porque não é possível esperar mais. Pesquisadores, ativistas e sociedade estão fazendo a parte que lhes compete. E aguardam posicionamentos mais claros do que os gestores nacionais têm a dizer e sinalizar para todas as equipes de profissionais de saúde que estão acolhendo toda a dor e o sofrimento.
 

 
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