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Eleição é tempo de promessas e, nosso papel, cobrar cumprimento

Fátima Oliveira
 
5/10/2016

m 2 de outubro ocorreram eleições em todo o país para prefeitos (as) e vereadores (as). A peleja agora é para quem se elegeu e deve evoluir: “pensar global e agir local” pela preservação da democracia no Brasil.

Ao acordar no dia das eleições, senti saudades do tempo em que boca de urna não era delito eleitoral (artigo 39, parágrafo 5º, I e II, Lei Ordinária 9.504/1997). Nunca entendi boca de urna como um cerceamento da vontade do (a) eleitor (a). Agora é crime! 

Até ri pensando que, se vovó Maria Andrelina fosse viva, no fuzuê das eleições onde moro, pediria para ela fazer uma promessa para a gente vencer, embora ela dissesse que não fazia promessa para ninguém ganhar eleição porque “a gente nunca sabe quem é mais mentiroso, pois ‘inleição’ é tempo de promessa”. Era uma santeira de muita fé, e meu avô dizia que os santos gostavam dela, como escrevi em “Para que servem os santos” (O TEMPO, 8.5.2007). 

“Nasci no médio sertão do Maranhão, numa família de moral camponesa rígida, de negros dos mais católicos, sem sincretismos, que abominava terecô e assemelhados. E era muito apegada aos santos. Elementar, onde não há nenhum tipo de atenção à saúde, se ‘apegar’ com os santos era o que restava em caso de doença.

“A religiosidade era tanta que meu nome é Maria de Fátima. Nasci no ano em que Nossa Senhora de Fátima veio ao Brasil, na peregrinação mundial de sua imagem, idealizada pelo padre belga Demontiez O.M.I. – da Cova da Iria, em 13.5.1947, para o Congresso Marial de Maastricht, dos Países Baixos. Deu a volta ao mundo e retornou em 1959.

“O único testemunho escrito que conheço é o de dona Nilza do Goiabal (bairro de São Luís), que, ‘quando jovem, assistiu em São Luís à peregrinação de Nossa Senhora de Fátima, de Portugal. Levada pela emoção, prometeu a si mesma fazer a procissão de Nossa Senhora de Fátima, são Benedito e um tambor de crioula’ (Josimar Silva, ‘Perfil Popular’, Boletim 10, Comissão Mineira de Folclore, dez. 1977).

“Meus avós iam anualmente aos festejos da Senhora da Consolação, em Colinas (MA), em 8 de dezembro, data da padroeira da cidade. Quando criança, paguei um monte de promessas que vovó fazia. Na igreja de Santa Rita, num povoado perto de Colinas, entreguei um ex-voto (do latim: ‘votu’ = ‘promessa’). Meu rosto esculpido em madeira. Promessa de vovó, para que eu não ficasse com cicatrizes de catapora no rosto, pois onde já se viu uma moça com o rosto deformado? Nem marido ia arrumar! Na época, eu estava com uns 7 anos.

“Roupas especiais como pagamento de promessa, vovó era useira e vezeira em prometer. Era famosa por conseguir tudo o que pedia aos santos. Mamãe vivia às turras com ela, que costumava fazer promessas pela gente e depois exigia que a gente pagasse! Adulta, eu a proibi de fazer promessas em meu nome, pois eu não as pagaria. Ela não titubeou: ‘Ah, é, sua mal-agradecida, soberba, depois não chore na hora da precisão! Promessa pra santo tem de pagar. Se ficar devendo, não alcança mais nenhuma graça’.

“Tudo que acontecia de bom ela logo dizia que havia uma promessa a pagar. Na adolescência, comecei a implicar com esse jeito dela de ser. Havia motivos de sobra. Criança, usei uma roupa marrom, como o hábito de são Francisco, por três meses, num calor terrível, pagando promessa feita por ela...

“Para que servem os santos? Na compreensão popular, por estarem mais próximos de Deus, podem intermediar pedidos. Promessa não é isso? Pede-se ao santo e, conseguido o intento, paga-se. Promessa é dívida”.

Ah, quem dera que prefeitas e prefeitos pensassem assim. Mas nosso papel é cobrar. Vamos, gente!

 
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