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O peso do patriarcado nosso de cada dia, dia após dia...

Fátima Oliveira
 
24/1/2017

 Em tempos de papa “morde e assopra” – sataniza a teoria de gênero e exorta aos homens que ouçam as mulheres – e da misoginia de Donald Trump entronizada na Casa Branca, dá arrepio pensar. Eu vivi os tempos Bush, pai e filho, e Regan. Sei do que falo e do que temo. É quase um desalento.

No horizonte, uma disputa ideológica titânica pertinente às questões de saúde pública – o primeiro ato de Trump foi contra o Obamacare (2010), que garantiu seguro de saúde para milhões de americanos. Trump, em ordem executiva, reduziu a “carga financeira” e regulatória do sistema antes de derrogar a lei e substituí-la.

Trump desferirá ataque brutal aos direitos sexuais e aos direitos reprodutivos. De certeza contará com o apoio irrestrito da Santa Sé e do Vaticano! A conjuntura é de somatória de fundamentalismos, lançando tentáculos de modo danoso e singular sobre quem vivencia situações de vulnerabilidade, a exemplo das opressões de gênero, racial/étnica e de classe. Do site da Casa Branca foram eliminadas as páginas sobre direitos LGBT e civis e mudanças climáticas.

Pontuo que ele tem o compromisso com o movimento Tea Party – ultraconservador e ultradireitista, um braço do Partido Republicano – de restabelecer, via ação executiva, a lei ou regra da mordaça, ou Regra da Obstrução Global, conhecida como Global Gag Rule, criada por Ronald Regan (1981-1989). Foi rechaçada por Bill Clinton (1993-2000) e restaurada por Bush Filho (2001-2008). Conforme a Global Gag Rule, as organizações estrangeiras que recebem fundos norte-americanos, públicos ou privados, para planejamento familiar, saúde sexual e saúde reprodutiva estão proibidas de falar sobre aborto.

No primeiro dia do governo de George W. Bush, o primeiro ato foi legislar sobre os corpos das mulheres do mundo inteiro, reeditando, como uma religião a ser seguida, a maldita Global Gag Rule e, ao mesmo tempo, estimulando, com muito apoio financeiro, a abstinência sexual – promessa de se manter virgem até o dia do casamento. Todos os governos do mundo disseram “amém”.

Pesquisas do governo norte-americano sobre a cruzada pela preservação da virgindade – levada a cabo por grupos cristãos e por George W. Bush – concluíram que não foi reduzido o contágio de Doenças Sexualmente Transmissíveis (DSTs), pois a maioria dos adolescentes que se comprometeram a abster-se sexualmente antes do casamento mandou o compromisso às favas. Registrou-se taxa igual de transmissão de DSTs dos demais pesquisados: 12 mil adolescentes, entre 12 e 18 anos, foram acompanhados por oito anos, dos quais 88% dos que prometeram castidade tiveram relações sexuais antes do casamento.

Conforme Peter Bearman, sociólogo da Universidade de Columbia e condutor da pesquisa mesmo entre quem manteve o compromisso de abstinência ou prorrogou a idade de sua primeira experiência, poucos usavam métodos anticoncepcionais, correndo, por isso, o mesmo risco de contágio por DSTs ou de gravidez! Para ele, “o movimento a favor de uma educação sexual baseada na abstinência induz não apostar em campanhas de informação sobre o sexo seguro, o que se torna contraproducente”.

O patriarcado prospera sob o manto do fundamentalismo e estimula visões de mundo puritanas e teocráticas. O papel das mulheres é se insurgir contra as trevas! (como expliquei em “A cruzada do papa Francisco de satanização da teoria de gênero”, de 25.10.2016). As norte-americanas, com apoio do feminismo mundial, sabem que consolidar o Estado laico é a exata contraposição ao fundamentalismo religioso, portanto marcharam contra o fortalecimento das ideias patriarcais.

 

 
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